Apostas Desportivas Online para Jovens em Portugal: Riscos Específicos e Regulação

Apostas online e jovens em Portugal: riscos específicos para os 18-24 anos e dados SRIJ 2025

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30,9% dos Novos Apostadores Online em Portugal têm Entre 18 e 24 Anos: O Que os Dados Dizem

Entre Setembro de 2023 e Setembro de 2024, trinta virgula nove por cento de todos os novos registos nas plataformas de apostas online em Portugal — cerca de oitenta e três mil novas contas — foram de jovens com idades entre dezoito e vinte e quatro anos. É o grupo de entrada mais representado no mercado, e também o grupo com mais vulnerabilidade documentada a padrões problemáticos de jogo.

Escrevo sobre este tema com alguma cautela, porque não quero construir um argumento de que os jovens adultos não deveriam apostar — a lei estabelece os dezoito anos como idade mínima legal e essa é a fronteira que conta. O que os dados mostram, e o que a prática clínica de profissionais como Pedro Hubert do IAJ confirma, é que apostadores que começam cedo têm trajectórias de risco específicas que diferem das de quem entra no mercado mais tarde. Essa informação merece ser partilhada claramente.

Este artigo não é um aviso para não apostar. É um conjunto de factos e ferramentas para apostar com mais consciência do contexto em que se está a entrar.

Jovens Apostadores: Estatísticas e Tendências em Portugal

O grupo dos dezoito a vinte e quatro anos representa actualmente cerca de quinze por cento dos apostadores registados activos, mas cresceu de forma desproporcional nos últimos dois anos. A concentração em plataformas ilegais é também mais elevada neste grupo: quarenta e três por cento dos apostadores entre dezoito e trinta e quatro anos usam plataformas sem licença SRIJ, comparado com quarenta por cento da média geral.

A sobrerepresentação de jovens em plataformas ilegais não é coincidência. Os canais de promoção ilegal — influencers nas redes sociais, grupos de Telegram, conteúdos de entretenimento digital — têm audiências predominantemente jovens. Um apostador de quarenta anos que descobre o mercado de apostas online tem maior probabilidade de chegar a ele por canais mais formais; um jovem de vinte anos chega mais provavelmente por uma recomendação num vídeo do YouTube ou por um story do Instagram.

A correlação entre idade jovem de início e problemas de jogo é bem documentada. Pedro Hubert, director do IAJ, refere que a faixa etária do jogador patológico no instituto anda entre os vinte e três e os vinte e cinco anos — e que muitos desses jovens começaram a apostar quando ainda eram menores, ou imediatamente após atingir os dezoito anos.

Riscos Específicos para Apostadores Jovens

O cérebro humano completa o desenvolvimento das regiões frontais — responsáveis pelo controlo de impulsos, avaliação de risco, e tomada de decisão a longo prazo — por volta dos vinte e cinco anos. Antes dessa maturação completa, a tendência para subestimar riscos e sobrestimar a probabilidade de ganho é neurologicamente mais elevada do que em adultos mais velhos. Não é uma questão de inteligência; é fisiologia do desenvolvimento cerebral.

Este factor biológico combina com factores contextuais específicos dos apostadores jovens: rendimento mais limitado (o que torna as perdas relativamente mais impactantes), menor experiência de gestão financeira, e maior exposição às narrativas de “ganho fácil” que dominam os canais digitais frequentados por jovens adultos.

A velocidade de progressão para padrões problemáticos é também significativamente mais rápida em apostadores jovens. Pedro Hubert observou que “muitos têm um percurso que por vezes pode ser muito rápido, mas mesmo quando é muito rápido, é seis meses, um ano, ano e meio.” Em apostadores mais velhos, o mesmo processo demora tipicamente mais tempo. A detecção precoce é, por isso, mais importante e mais urgente neste grupo.

As apostas online têm características específicas que amplificam estes riscos: disponibilidade vinte e quatro horas por dia, acesso pelo telemóvel em qualquer contexto, notificações push que criam urgência artificial, e a facilidade de fazer depósitos com MB Way ou cartão sem as fricções que os pagamentos físicos criavam. Para um jovem adulto com controlo de impulsos em desenvolvimento, este ambiente de estimulação constante é mais desafiante do que para alguém com décadas de experiência em gestão financeira.

Influencers e a Normalização do Jogo para Jovens

A ligação entre promoção digital por influencers e apostadores jovens é um dos problemas mais documentados do mercado português actual. Os influencers com audiências jovens que promovem plataformas de apostas — legais ou ilegais — estão a apresentar o jogo como uma actividade normal de entretenimento a um público no período de desenvolvimento mais vulnerável à formação de hábitos.

A linguagem de “ganho fácil” ou “rendimento extra” que Ricardo Domingues da APAJO descreveu como “absolutamente absurda” é especialmente eficaz com audiências jovens que procuram autonomia financeira. Um jovem de vinte anos que vê um influencer apresentar apostas como uma forma de complementar os rendimentos está a receber uma narrativa que o seu sistema de avaliação de risco — ainda em desenvolvimento — não está bem equipado para questionar criticamente.

O impacto vai além dos resultados financeiros imediatos. A normalização do jogo como actividade quotidiana durante os anos de formação de hábitos pode criar padrões de comportamento que persistem mesmo quando as circunstâncias financeiras mudam. Apostadores que começaram a apostar regularmente aos dezoito ou dezanove anos têm, estatisticamente, maior dificuldade em moderar o comportamento aos vinte e cinco ou trinta.

Ferramentas de Protecção para Apostadores Jovens

Os operadores com licença SRIJ são obrigados a disponibilizar ferramentas de jogo responsável a todos os apostadores, mas para apostadores jovens há um conjunto específico que faz mais diferença. Os limites de depósito configurados desde o início — e não apenas activados depois de um problema já estar instalado — são a ferramenta com maior impacto preventivo documentado.

Três quartos dos utilizadores de plataformas de jogo online em Portugal já utilizam alguma ferramenta de jogo responsável, segundo dados de 2024. Limites de apostas e depósitos são as mais populares. Para apostadores jovens, a recomendação prática é configurar estes limites no momento do registo, quando a decisão é feita com frieza e não sob a pressão de um momento de perda ou de entusiasmo.

A autoexclusão temporária — períodos de trinta ou noventa dias de pausa — pode ser uma ferramenta útil para apostadores jovens que identificam padrões de uso excessivo antes de o problema se tornar mais sério. O IAJ e a Linha de Apoio ao Jogo Responsável estão disponíveis para apoio confidencial a qualquer apostador, independentemente da idade, que queira discutir o seu comportamento de jogo.

Perguntas sobre Apostas Online e Jovens

Os operadores SRIJ têm medidas específicas para proteger apostadores jovens?
Sim. Os operadores com licença SRIJ são obrigados a verificar a idade no registo e a impedir o acesso a menores. Para apostadores adultos jovens (18-25 anos), algumas plataformas implementam medidas adicionais de monitorização de padrões de jogo. Todos os operadores têm de disponibilizar ferramentas de jogo responsável, incluindo limites de depósito e autoexclusão, que são especialmente relevantes para apostadores no início da sua trajectória.
A qual sinal de alerta um jovem apostador deve prestar mais atenção?
O sinal mais importante é apostar com dinheiro que não é disponível para entretenimento — usando fundos de poupança, pedindo dinheiro emprestado, ou deixando de pagar despesas essenciais para ter dinheiro para apostar. Outros sinais relevantes: pensar em apostas em momentos inapropriados, sentir ansiedade quando não é possível apostar, e tentar esconder o comportamento de apostas de amigos ou família.
Onde pode um jovem com problemas de jogo pedir ajuda em Portugal?
O IAJ (Instituto de Apoio ao Jogador) oferece acompanhamento psicológico especializado para dependência do jogo, com possibilidade de contacto anónimo. A Linha de Apoio ao Jogo Responsável, operada pela Santa Casa da Misericórdia em parceria com o IAJ, é acessível por telefone. O apoio é confidencial e gratuito. A intervenção precoce — antes de o problema estar completamente instalado — é significativamente mais eficaz do que esperar que a situação agrave.